terça-feira, 9 de agosto de 2016

Decayed - The Burning Of Heaven

Porta-estandartes máximos do Black Metal Lusitano, quer vocês queiram quer não, os Decayed brindam-nos aos 26 anos de existência com o seu décimo primeiro álbum “The Burning Of Heaven”, numa edição em CD a cargo da Helldprod e Chaosphere Records. Numa altura em que as temperaturas elevadíssimas que presenciamos tornam o conceito do álbum ainda mais adequado (saindo assim no timming ideal) a banda mostra como os anos, a experiência e a dedicação são factores importantes para lançar um grande álbum, aquele que é, a segunda parte do clássico “The Book Of Darkness” editado em 1999 e que levou a banda a uma tour europeia. Curiosidades à parte, a verdade é que encontramos aqui muitas semelhanças com esse álbum a nível instrumental mais é algo mais notado sobretudo em termos líricos. 

Sem cair no erro inútil de fazer comparações a verdade é que “The Burning Of Heaven” soa muito mais coeso, natural (principalmente na voz) e claro, com uma produção adequada ao nosso tempo (isto comparando com 1999). Menos feroz que “The Ancient Brethren” e menos forçado que “Into The Depths Of Hell” aqui os riffs fluem de forma tão natural que temas longos como “The Burning Of Heaven (Flames Of Armageddon)” se tornam nos mais apetecíveis onde a vontade de carregar no replay é imediata para ouvir aquela que é a banda sonora dum céu em chamas, da morte das três principais divindades cristãs retratadas na capa: Pai, Filho e Espírito Santo. Mas não só de temas longos e mais complexos se faz o álbum, “Son Of Satan” e “War Of The Gods” são dos temas mais directos e ferozes do álbum onde somos envoltos em riffs e solos como se estivessemos em chamas. “The Mirror Of Usire” é outro longo e grande tema com um início mais doomy mas que rapidamente é avassalado pela rapidez dum estrondoso trabalho de bateria. Mas nem tudo se resume a rapidez, raiva e brutalidade e exemplo disso é a espectacular “Halls Of Torment Part II” um tema ambiental, sombrio e lento, ou a introdução “Night Of The Demons (Introduction)”, que dá de seguida lugar a um cover de Motörhead “Deaf Forever” que encaixa perfeitamente na sonoridade do álbum e mostra as verdadeiras influências da banda e que o Black Metal não é (como muitos pensam) corpse paint,  guitarras distorcidas e mariquices nórdicas. “Death is only the begining” é assim que começa o último tema do álbum “Cravado Na Cruz” cantado em português com uma voracidade vocal impressionante, algo que já não acontecia desde o “Chaos Underground”, de 2010.

“The Burning Of Heaven” é sem qualquer dúvida o melhor álbum de Decayed com esta formação: JA nas guitarras, Vulturius na voz e baixo, e Tormentor na bateria. Possivelmente a melhor proposta do ano no que toca ao verdadeiro e clássico Black Metal, com uma produção refrescante e inovadora, “The Burning Of Heaven” revela paixão, dedicação e um sentido de musicalidade fenomenal. Lusitanian Black Fucking Metal!

terça-feira, 1 de março de 2016

Entrevista: Venom Inc.

Como surgiu a ideia de formar Venom Inc.?
Demolition Man: Bem, não foi intencional, não era um plano, eu e o Mantas temos os M:Pire Of Evil que tem sido o nosso projecto nos últimos quatro ou cinco anos e fui convidado para um espectáculo onde fui tocar com Atomkraft o álbum “Future Warriors” num festival de retrospectiva em Newcastle, onde o Mantas vivia na altura (agora vive em Portugal), não íamos tocar juntos mas íamos lá ver e apoiar as bandas mas depois o Mantas chamou-me para tocar e começámos a ensaiar numa de diversão. O Abaddon estava na audiência e duas semanas depois o promotor do Keep It True Festival (que também estava na audiência) contactou-me e disse que quando me viu a mim e ao Mantas no palco tinha pensado em como seria fantástico que o Abaddon estivesse também no palco connosco porque não suportava a ideia de o ver no apenas. Depois falou-me da ideia de nos contratar para tocar no Keep It True Festival na Alemanha, como M:Pire Of Evil, e se o Abaddon também estivesse lá e se juntasse a nós em palco, ou seja, a ideia começou a surgir a partir daí. Falámos nisso e decidimos tocar lá que é um festival verdadeiramente Old School e metade do nosso set foi M:Pire Of Evil e depois o Abaddon juntou-se a nós e tocámos cinco ou seis clássicos de Venom e começou aí! Mesmo antes de deixarmos a Alemanha recebemos propostas para tocar na Ásia como Venom Inc. e nós nem sequer tínhamos nome e diziam-nos “queremos-te a ti, ao Mantas e ao Abaddon a tocar uma série de concertos aqui” e depois começámos a receber propostas de promotores europeus para fazer uma tour, depois foram os Estados Unidos depois a América do Sul e eu pensava “nós ainda nem somos uma banda devíamos mesmo fazê-lo?”. Depois veio o nome, primeiro era para ser Iron & Steel que escolhemos da letra da “Die Hard” e as agências começaram a dizer que nos tínhamos de nos chamar Venom “alguma coisa” porque nós éramos Venom e nós “ok, e que tal Venom Incorporated?” porque temos outros projectos musicais e pronto, aconteceu, não tivemos controlo sobre isso.


Achas que teria o mesmo impacto se não chamassem à banda Venom Inc. mas Iron & Steel?
Demolition Man: Provavelmente existe uma razão comercial por detrás do nome Venom mas a questão aqui é que Venom é algo muito próximo e importante para o Mantas e o Abaddon por razões óbvias, e também para mim. Nós não vendemos a merda de um copo com nome Venom nele, nós vendemos o espírito e a alma da música e queremos que as pessoas venham sentir isso outra vez. Está a ajudar? Provavelmente, mas é para alertarmos as pessoas que nós estamos ali... E quaisqueres questões que possam ter em relação à legitimidade de Venom Inc. terão de nos dizer depois de tocarmos!


Planeiam lançar um álbum de estúdio?
Mantas: Sim! As músicas estão em fase de demo e estão ainda a ser escritas, existem mais de cem riffs nas nossas drives, há muito material mas as nossas prioridades agora não são essas portanto não sabemos quando iremos para o estúdio acabar com o trabalho. Não temos pressa, já tivemos ofertas para o álbum e já falámos com algumas empresas/editoras que querem mesmo que o álbum saia mas a primeira coisa que irão ter de nós será um álbum ao vivo com o documentário desta tour, na América e isso tudo porque estamos mesmo a gravar tudo (vídeo, áudio). Na noite passada ouvimos um concerto que demos há umas noites, um gajo pôs um mix básico e pôs aquilo bem alto e soava mesmo muito bem. Aquilo com que as pessoas nos têm sobrecarregado é sobre se nós soamos mesmo às gravações originais de Venom, aos concertos daquela altura, porque (se for o caso) os nossos concertos levam as pessoas a voltar atrás no tempo, elas viajam no tempo. E sobre o nome da banda ser um ponto de venda, claro que é, as pessoas vendem o nome há muitos anos. Algum de nós nesta banda faria alguma coisa sem o nome Venom vir ao de cima? É algo que aparece sempre, seja no meu projecto com o Tony (M:Pire Of Evil) ou no meu projecto a solo, Mantas, com o álbum “Zero Tolerance”. Eu fui sempre o primeiro a afastar-me dos Venom [saiu em 1985] e eu próprio pensei sobre a legitimidade disto com o Tony mas é assim as pessoas sabem quem somos e aquilo têm de perceber que depois do Keep It True Festival apareceram vídeos no YouTube com o nome Venom Inc. - the heart, spirit and soul of Venom, alguém colocou lá isso e depois a Metal Hammer, com quem fizemos uma entrevista em Londres, pegou nisso também. E depois saiu um artigo “Are Venom Inc. The True Incarnation Of Venom?”
Demolition Man: Como te disse, não se trata daquilo (Venom com o Cronos) ou disto (Venom Inc.), trata-se daquilo e disto! Algumas pessoas querem ver o Cronos outras querem ver o Mantas e o Abaddon, se elas querem ver uma reunião dos três juntos é impossível! Foi tentado mas é impossível mantê-los juntos. Significa isso que não deveriam ver o Mantas e o Abaddon juntos? A tocar as mesmas músicas? Eles estavam lá quando as músicas foram feitas e se tornaram clássicos. Eles têm o direito de o fazer e olhámos para isso e pensámos “é errado ir tocar essas músicas?” claro que não e se os fãs querem vê-lo vão vê-lo! Nós não usámos  o nome Venom só para ter lucro, como poderíamos fazê-lo? O dinheiro com o nome Venom anda a ser feito com T-Shirts, Bootlegs, as máscaras de plástico do “Black Metal”, isqueiros, casacos, até podes comprar roupa interior com o nome Venom nela, isso é fazer dinheiro com o nome e qualquer um o pode fazer. Se olhares para nossa merchandise temos uma T-Shirt com um design clássico, um hoodie, um chapéu e é isso que podes comprar. Mas aquilo que nós queremos verdadeiramente vender não é um concerto com um palco bonito com pirotecnias, é apenas a música de Venom e a sua alma. Vais entrar ali hoje e as luzes vão estar apagadas, vai ficar escuro e nós vamos dar tudo aquilo que temos! É essa ligação que as pessoas têm de ter com a música, a música em si! Não estou a dizer que não podes ir a um festival que é a única maneira que tens de ver Venom com todos aqueles truques, luzes, é brilhante! Não estou a dizer que seja mau mas esse é apenas um aspecto de Venom mas nós damos mais valor a outro aspecto: o sentimento! Como o público se sente quando nos ouve! Tocámos no Baroeg Open Air em Roterdão (Holanda) e eu estava no backstage e estava lá um gajo com uns 50 anos e perguntou “posso entrar e dizer olá?” e eu “claro, estou aqui só eu mas sim” e ele agarrou-se a mim e começou a chorar a dizer que nem devia (nem podia) estar ali e que teve de saltar por cima duma cerca e que quando começámos a tocar começou a chorar e sentiu-se com 16 anos outra vez! É essa a beleza da música! Fazer-te sentir livre outra vez e é isso que nós queremos, emoção pura!


Vocês representam a formação de Venom que durou de 1989 até 1992. Porque é que acabaram na altura?
Demolition Man: Foi algo que se completou em si mesmo. Quando o Cronos deixou a banda depois do “Calm Before The Storm” para se dedicar à sua carreira a solo (até foi para a América) o Abaddon decidiu que queria fazer algo e contactou-me e eu já tinha saído da minha outra banda (Atomkraft) e ele disse-me “olha o Cronos já se foi e ainda quero continuar a tocar, nós podemos fazer algo e tu podias assumir os vocais” e ele conhecia-me bem e sabia bem que eu podia fazê-lo e eu disse “a única maneira de eu o fazer é se tiver também o Mantas” porque para mim podes ter Venom com o Cronos (nada contra o Abaddon) e podes ter Venom com o Mantas, mas ter Venom apenas com o Abaddon é do tipo “tu precisas de ter um daqueles dois” e isso é muito importante por causa daquilo que o Mantas é e daquilo que nós somos juntos e isso poderia resultar mas eu e o Abaddon com outro gajo, nunca ia resultar e foi por isso que optámos por essa formação. Era algo novo, real! E tivemos grandes tempos, era um álbum muito progressivo para um álbum de Venom. Em relação ao segundo álbum [“Temples Of Ice”] ficámos um pouco desapontados com a produção e o artwork (que não estivemos envolvidos) e depois editámos o “The Waste Lands” e não demos os grandes concertos que deveríamos dar, provavelmente demos dois, um com King Diamond e outro na Rússia e basicamente fazíamos club shows. Fomos contactados pela nossa antiga promotora para fazer uma tour de suporte aos Sacred Reich na Europa e eu estava sentado num bar e pensei “mas que raio estamos nós a fazer? Isto não é Venom” e depois estávamos em Berlim (mesmo antes do muro cair, ele caiu dois dias depois) e eu o Mantas estávamos na parte de trás do Tour Bus e olhámos um para o outro e dissemos “está feito, já chega, já tivemos o suficiente” fomos lá à frente e dissémos “podes voltar para trás, estamos feitos, acabou!” Foi isso que aconteceu não foi do género de nos odiarmos uns aos outros. Eu e o Mantas trabalhamos muito com o coração, é algo muito emocional, é assim que tocamos e é assim que somos e quando não temos isso é como se o estivéssemos a fazê-lo apenas por números e nós não podemos fazer isso seja com que projecto for, nós trabalhamos e damos 100% daquilo que temos com as nossas bandas. De todos os concertos que damos tem de ser a 100% e tu e o público vão perceber se é real, com significado ou se estás a fazê-lo pelo dinheiro ou apenas porque tens de fazê-lo ou porque queres ser famoso...


Portanto nessa altura não tinham o sentimento que vos mantém juntos agora?
Demolition Man: Não, completamente!
Mantas: Não! Antes disto eu e o Abaddon falámos... Sabes que eu e o Abaddon não falávamos desde 1998 porque tivemos uns problemas com os membros de Venom e não só. E depois do concerto no Camden Underworld (em Londres) estávamos a falar e tínhamos pessoas a vir ter connosco e a dizer “isto está-me a levar para os tempos gloriosos de Venom” e também me levou a mim e ao Abaddon aos velhos tempos em que ensaiávamos juntos e isto para nós acaba por ser algo novo porque era algo que não estávamos habituados e tocar agora essas músicas com o Abaddon em palco... É muito difícil de descreve-lo. É espectacular!
Demolition Man: A reacção que as pessoas têm tido tem sido do género, nós temos todos mais de 50 anos, e perguntam “onde é que vocês vão buscar tanta energia?” e tu esqueces isso e voltas a ter 20 anos e a mesma energia, algo de mágico acontece. Na noite passada em Pamplona vieram muitas pessoas de propósito de França e ficaram estupefactas com o sentimento que nós transmitimos, aquilo que as pessoas transmitem e dão quando estão na linha da frente é mesmo que nós damos, é o mesmo sentimento e quando nos dizem que sentem que têm 15 anos outra vez nós também sentimos e é essa a beleza desta tour, o entretenimento.


Existem alguns planos para reeditar o “Prime Evil”, “Temples Of Ice” ou o “The Waste Lands”?
Demolition Man: Nós tentámos principalmente com os M:Pire Of Evil porque os fãs estavam sempre a perguntar-nos isso e a dizer para tocarmos isto ou aquilo desses álbuns mas eu dizia que nós não somos os Venom somos os M:Pire Of Evil e as pessoas queriam que nós, desde o dia 1, tocássemos temas desses álbuns quando nem tínhamos nenhum material pois tínhamos iniciado a banda há muito pouco tempo mas rapidamente fizemos músicas juntos para o “Creatures Of The Black” e o “Hell To The Holy” e não tínhamos mais nada então como iríamos fazer isso? Foi então que lançamos uma competição/votação em que as pessoas escolhiam as músicas que queriam que tocássemos ao vivo e foi então que as metemos no set. Depois pensámos que se calhar devíamos reeditar algumas dessas músicas porque haviam pessoas (principalmente as mais novas) que nunca meteram as mãos nesses álbuns porque estão fora do mercado. Eu tentei o meu melhor com a Sanctuary e a Universal Music Group que têm os masters originais. Acontece que os Venom estão na Spinefarm Records que é uma subsidiária da Universal que disse que não iria reeditar esses álbuns porque o Cronos não quer que eles os reeditem, ou seja, há aqui um conflito de interesses. Os fãs pedem-nos muito para nós os reeditarmos mas nós não temos controlo sobre as masterizações/gravações originais mas se nós tivéssemos podíamos reedita-los. Temos de implorar mas até agora nada. No ano passado chegaram a dizer que iam reeditar o “Prime Evil” mas essa ideia foi rapidamente posta de lado. Então nós pensámos no que poderíamos fazer e se eles têm as gravações nós deveríamos regrava-las e foi isso que fizemos com o álbum “Crucified” de M:Pire Of Evil e optámos por escolher músicas desses 3 álbuns, nós não fizemos aquilo que alguns fazem do tipo, escolher um álbum clássico e regravá-lo, é clássico porque é um clássico, se o regravar pode soar melhor mas é um álbum clássico e não é preciso regravares um álbum clássico porque é a gravação original que o faz ser clássico. O que fizemos, de forma muita cuidadosa, foi trazer algumas músicas para o nível de M:Pire Of Evil e justifica-las ter no nosso set. Não são apenas músicas do meu período nos Venom, agora são de M:Pire Of Evil e podemos toca-las ao vivo. Outra intenção dessa regravação foi permitir que as pessoas ouvissem essas músicas e que até então não podiam comprar o produto. Escusam assim de ir ao torrent sacar os mp3 antigos com má qualidade, nós podemos dar-vos as músicas com qualidade. Temos intenção de lançar o “Crucified II” e até o “Crucified X” se for preciso, tudo para que possamos dar às pessoas as  músicas que estão nessas gravações porque não temos controlo sobre elas. Esses álbuns são muito difíceis de encontrar e o preço a que algumas pessoas o vendem é ridículo. Outra maneira de o fazer seria editar uns bootlegs e distribuir pelos fãs mas nós somos puristas e queremos fazê-lo duma forma legítima. A editora que tem as gravações originais permite que haja um conflito e é assim se os fãs querem comprar os álbuns eles não têm o direito de mante-los guardados, neste caso desde 1992, é muito tempo. Estamos a trabalhar nisso e se pudermos faremos um grande pack com material ao vivo e um DVD em HD mas para isso eles teriam de deixar e têm sido bastante restrictivos quanto a isso. Esperamos conseguir tratar disso quando acabar a nossa tour mundial, há que ter esperança.


Mantas, como te sentes pelo legado que deixaste na história do Heavy Metal? Principalmente para aquelas bandas que vêem Venom como um grande referência principalmente no Black e Thrash Metal?
Mantas: Já me fizeram essa questão várias vezes, principalmente nesta tour. A resposta que te posso dar é esmagadora... Pensar que pensam em mim dessa maneira é fantástico mas também humilde. Eu sei exactamente aquilo que sou, temos os pés bem assentes na terra, vivo uma vida sossegada aqui em Portugal, nasci em Newcastle, aprendi a tocar guitarra, escrevi umas músicas fixes, as pessoas “tiram-nas” e de repente mudaste a face do Heavy Metal para sempre, não foi nada planeado. Eu sei quem sou, sou o Jeff, mas também sou o Mantas, e aquilo que digo e faço em palco é uma extensão daquilo que eu sou. Fora disso sou aquilo que tu vês, aqui sentado, quieto a ouvir os outros falar. Ter pessoas a vir dizer-nos coisas desse género é extremamente gratificante, por exemplo uma das bandas de hoje disse-me “sem ti esta banda não existia”. Temos fãs que nos dizem “tu mudaste a minha vida, ajudaste-me a ultrapassar problemas durante a minha vida”. Estou a escrever um livro de momento (muito lentamente porque estamos em tour) e existe um capítulo que se chama “Legions Iron & Steel” e é todo ele escrito pelos fãs e deixo aqui em aberto a possibilidade para quem quiser escrever algo para colocar lá se for relacionado com Venom. Descobri histórias surpreendentes! Uma por exemplo envolveu um conflito militar onde um homem das Forças Armadas do Canadá foi para debaixo de fogo a ouvir Venom! Isso é absolutamente incrível! Eu nem consigo descrever o que sinto em relação a isso. Nós vamos para o campo de batalha todas as noites que é o palco, onde tocamos Venom, e existe alguém que vai para um campo de batalha real disparar a ouvir Venom, numa guerra! E depois há aquela coisa de que os Venom que começaram o Speed, Death, Black, Thrash Metal, a cena toda... Estava a falar com alguém anteriormente sobre o lado norueguês da coisa e de algumas bandas dizerem que os Venom não são bem Black Metal, não são aquilo que as pessoas consideram hoje em dia como Black Metal, porque o estilo evoluiu e foi-se desenvolvendo. Mas eu tenho uma pergunta para essas pessoas: sem um álbum chamado “Black Metal” e uma música chamada “Black Metal” o que lhe teriam chamado? É uma pergunta simples.


Isso acaba por acontecer também com Black Sabbath, muitas pessoas dizem que não foram a primeira banda de Heavy Metal mas que Judas Priest e Iron Maiden o foram. Acaba por não fazer sentido por tanto uma como outra banda pegaram naquilo que os Black Sabbath já tinham feito...
Mantas: Sim sim eu concordo. Li uma coisa, há mesmo muito tempo atrás, era um artigo sobre Black Sabbath e começava assim “veteran Black Metal band Black Sabbath” basicamente estavam a dizer que Black Sabbath eram uma banda de Black Metal mas porra, eles começaram muito antes de nós! Quando fizemos o primeiro álbum de M:Pire Of Evil escrevi/compus um tema chamado “Devil” que é tocado com uma guitarra leve mas depois também com riffs pesados e eu quis passar a mensagem de que os Venom criaram o Black Metal e lhe deram o nome e que antes disso havia Black Sabbath e Black Widow, podias encontrar num lado qualquer um gajo a tocar músicas sobre o diabo numa guitarra acústica, não era nada de novo. Aquilo que nós fizemos foi sermos mais directos, trouxemos isso para a frente das pessoas e se me perguntarem se fizemos isso deliberadamente para chocar as pessoas eu digo que sim, sem dúvida. As capas dos álbuns, ninguém tinha visto aquilo antes. Tivemos uma entrevista em Londres uma vez e aparece um tipo de fato completo a dizer que estávamos a corromper as pessoas com as nossas mensagens subliminares e eu: espera aí, nós não estamos a esconder nada, nós temos um álbum chamado “Welcome To Hell”, temos uma música que se chama “In League With Satan” queres que eu seja ainda mais óbvio? Ninguém nos vai dizer quais são as mensagens que temos nos álbuns elas são bastante explícitas. E sim foi feito para chocar e no início dos anos 80 as pessoas ficavam chocadas facilmente mas hoje, não consegues chocar ninguém. Ligas as notícias e vês fome e outras imagens chocantes, muito piores que qualquer filme de horror ou concerto de Metal e a diferença é que o que acontece no mundo é real e acho que a raça humana se tem tornado cada vez mais insensível porque essas imagens estão sempre a aparecer e acabam por se tornar algo normal, não é que concorde com a “publicidade” mas pronto, é inevitável. Se uma banda hoje em dia pensar em chegar e tentar chocar alguém é impossível. Penso que última a chocar alguém de forma mais exuberante foi Marilyn Manson e basicamente aquilo era uma brincadeira, no final de contas era só imagem. Mas sabes, é espectacular pensar que a banda que eu comecei e que algumas música que compus tiveram tanto efeito no Heavy Metal.


Voltando ao tema das discussões do Black Metal, o que é o para ti o Black Metal?
Mantas: O que é o Black Metal? É uma boa pergunta. Eu vejo os primeiros álbuns de Venom como aquilo que as pessoas descrevem como First Wave Of Black Metal. Para mim agora... Bem não são muitas as bandas de Black Metal que sigo mas Dimmu Borgir e Immortal ouço bastante. Adoro Dimmu Borgir, são uma banda excelente. Por exemplo a música “The Serpentine Offering”, para mim isso é Black Metal, é uma música incrível! Não vejo Cradle Of Filth como Black Metal vejo-os mais como um circo vampiresco [risos], atenção que um deles até é meu amigo, o baterista Marthus, que toca no meu projecto a solo, mas vejo-os mais como algo mais gótico. Mas para mim, os Dimmu Borgir são “a banda” de Black Metal e para mim eles são uma evolução daquilo que nós fizemos. Basicamente o que estas bandas fizeram foi pegar naquilo que nós fizemos e levaram-no ao extremo, tal como nós pegámos em Black Sabbath, Judas Priest e Motörhead e levámos ao extremo. Sempre que compunha eram essas as bandas que me vinham à cabeça, às vezes perguntam-me como compus aquilo e foi assim. É algo que simplesmente acontece, vem um riff e aí está a música. Não há nenhuma ideia pré-concebida daquilo que tenho de escrever, no que toca a isso vejo-me mais como um líder que como um seguidor porque tento sempre criar algo original.
Demolition Man: Gostava ainda de clarificar uma coisa: o género que se tornou o Black Metal não é Venom. E depois há sempre aquelas questões de uns consideram que são Black Metal outros não. Ou são mesmo? Vejamos: eles fizerem um álbum de nome “Black Metal” e o título desse álbum, dessa música era para descrever o som de Venom, não era para descrever um género que se iria tornar progressivo, com orquestras ou sobre folclore nórdico, era para distingui-los de todos os outros. Se olhares para o género hoje em dia eles não são Black Metal, todavia, serão essas bandas de hoje em dia Black Metal? Se os Venom lhes chamaram a eles próprios Black Metal? A diferença do género é essa e se olhares para os Venom como Black Metal, como algo definido por eles, então essas bandas de hoje não são Black Metal, são aquilo que elas próprias definem como True Black Metal. Mas é assim, eles foram obviamente influenciados por Venom, tal como os Bathory foram e acrescentaram orquestras progressivas que por sua vez foram influenciar outras bandas, tal como os Venom os influenciaram. Tiram um título daqui uma frase dali um movimento doutro lado e é isso que vai formando um género. Num sentido mais puro Venom está muito longe de Dimmu Borgir mas se a influência está lá? Sem qualquer dúvida.
Mantas: Naquela altura qualquer banda com guitarras eléctricas e cabelos compridos era considerada Heavy Metal. Para nós grande parte das bandas não eram Heavy Metal. Nós nem nos sentíamos parte da New Wave Of British Heavy Metal e depois veio a questão “vocês afinal são o quê?” e lá estava o álbum “Black Metal” e definir-nos, era uma declaração para alienar-nos dessa cena e individualizar a banda e fizemo-lo à nossa maneira. Não nos víamos como uma banda da New Wave Of British Heavy Metal como por exemplo as do nordeste (da nossa zona) Raven, Fist ou Tygers Of Pan Tang, nós não tínhamos nada em comum com essas bandas e foi por isso que a declaração foi feita! Foi um pouco arrogante mas as coisas era assim.


Para terminar gostavam de deixar alguma mensagem aos fãs portugueses?
Demolition Man: O Jeff pode fazê-lo inteiramente em português já que ele mora cá [risos]. Gostava de dizer a toda a gente em Portugal para nos virem ver e para não nos julgarem antes de verem e o experienciarem. Mais é melhor. Se forem a uma loja de doces e só puderem comprar um chocolate pode ser muito difícil mas se puderes escolher vários é melhor. Aproveitem o concerto, obrigado por nos seguirem e apoiarem, muito respeito para com vocês todos. Obrigado pela entrevista.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Simbiose - Trapped

Depois do muito bem sucedido “Economical Terrorism” os Simbiose regressam com “Trapped” um álbum que vem marcar várias mudanças na banda e a meu ver uma nova fase. É o primeiro álbum depois do “Bounded In Adversity” a ser editado novamente pela Anti-Corpos e o primeiro depois do “Fake Dimension” a não ser produzido pelo sueco Ulf Blomberg, é também o primeiro álbum da banda apenas com um vocalista principal, o Jonhie. Muito pouca gente fala nisto mas parece-me haver uma sucessão lógica e contínua dos álbuns de Simbiose quando por exemplo em 2007 se fala duma suposta evolução (“Evolution?”) que levou a uma dimensão ilusória (“Fake Dimension”) que por sua vez permitiu o desenvolvimento dum terrorismo económico (“Economical Terrorism”) sem precendentes que levou as pessoas (como a própria banda referiu) a estarem presas, de terem chegado a uma fase em que já não há nada a fazer, pela crise, pelo roubo e pelas injustiças e é disso que fala por exemplo o tema “Abismo” (e não só).

“Trapped” perfaz quase 40 minutos de Crust embebido em muitos riffs de Metal e é a meu ver o álbum mais melódico da banda desde o “Bounded In Adversity” de 2004, menos directo e agressivo que o “Economical Terrorism” mas por outro lado mais elaborado, técnico e cuidado, com uma adaptação a uma voz bastante bem conseguida e esse seria um dos principais obstáculos da banda mas que foi, e bem, ultrapassado. Os temas, como já manda a tradição, vão alternando entre o português e inglês mas neste álbum predominam os temas lusos. O grande destaque do álbum vai para a dupla de guitarristas e para os seus riffs contagiantes e muito bem elaborados que reflectem aqui uns quase 25 anos de experiência nestas andanças e isso ouve-se logo no tema “Ignorância Colectiva” um dos temas que fica logo no ouvido e claro um dos melhores deste registo. 

“Acabou A Crise, Começou A Miséria” é claramente o melhor tema do álbum e tem tudo para alinhar na lista de clássicos de Simbiose, pelo main riff excelente, pela letra (como sempre) realista e claro pelo refrão brutal com uns acordes de guitarra de fundo arrepiantes! “Deixós Falar…” e “Infant Gas Mask” são possivelmente os temas mais directos e agressivos do álbum. “Abismo” é mais um tema excelente onde a banda revela estar em grande forma tanto em termos líricos como musicais com uma letra e um instrumental espectaculares (vejam o video clip para perceber melhor a história). Felizmente não se encontram temas menos bons e é por isso que “Trapped” se torna um álbum tão interessante, o tema-título é o mais bem conseguido em inglês já “Será Que Há Morte Depois Da Vida?” fala de retóricas do campo psicológico e religioso algo que não é muito comum nas letras da banda. Os riffs de “Modo Regressivo”, as melodias de “Consciencialização” e “Don't Play Dead” e a raiva de “(A)pagar” são extremamente viciantes. “Fallout” e “Quem Vai Ganhar?” são os últimos temas do álbum e este último é uma grande crítica ao conflito israelo-palestino.

“Trapped” foi sem dúvida um dos melhores discos nacionais de 2015 e um passo muito importante na carreira de Simbiose. Foi editado pela Anti-Corpos em CD Digipack e LP em parceria com outras editoras estrangeiras a Criminal Attack Records, Deviance Records, Apathy Never, Punk Vortex, Tanker Records e a Neanderthal Stench. A banda ruma agora numa nova e ambiciosa tour pelo Brasil, país que os recebeu muito bem em 2008 onde na altura promoviam o clássico “Evolution?”, agora é a vez de “Trapped” pisar o solo sul-americano onde se comemoram também os 25 anos de Simbiose.